terça-feira, 8 de abril de 2008

Tia Áurea e a mangueira


Se me perguntassem: “quando você volta no tempo, o que lhe vem à cabeça com mais nitidez?”, eu responderia: “minha tia Áurea e a mangueira enorme do quintal da casa dela”. A lembrança vem de Barra do Piraí, de anos idos há muito. Eu e meus primos crescemos cercados de verde, salpicado por flores, frutos, borboletas, beija-flores, enfim, coisas que não se vêem mais aqui na cidade grande.

Mas voltando ao assunto: lembro da tia Áurea, que já era assim, como hoje: de cabelos prateados presos em coque, camisa de botão curtinha, saia até os joelhos e sandalinha de couro preto fechada na frente. Por morarmos perto – e sermos andarilhos (naquele tempo criança andava sozinha perambulando pelos quintais da vizinhança) -, visitávamos a tia quase todos os dias.

Ela recitava Casimiro de Abreu, aquele poema lindo chamado “Meus oito anos”. Invariavelmente. Fizesse chuva ou sol. No quintal, na cozinha, na varanda (com a velha cadeira de balanço), qualquer local era adequado. Não importava a quantidade de sobrinhos na platéia. Muitas vezes ela recitou só pra mim, outras tantas recitou pra uma turma.

Não me lembro bem dos rostos dos outros – hoje todos na casa dos 30 anos – muito menos do meu, quando a ouvíamos. Mas me recordo da sensação como se fosse hoje. A doçura da voz dela, os cabelos prateados, a impostação que colocava na voz. E cada verso do poema. E a enorme mangueira apinhada de frutos no quintal da casa, que ficava repleta de lagartixas (taruíras, para ela) ao cair da tarde.

Porque além do Casimiro de Abreu, tia Áurea era apreciadora de mangas. A mangueira tinha a maior copa que eu já conheci, o tronco era marrom-muito-escuro, e havia muitas, muitas mangas rosas. Grandes e suculentas. Doces. E a tia, depois de recitar, nos levava para o banco que ficava embaixo da árvore, cutucava alguns frutos com bambus, descascava e cortava fatias deliciosas, que dava na nossa boca. Os fiapos nos dentes não incomodavam nada.

Hoje a mangueira já não existe mais, construíram uma casa em cima dela. A tia Áurea segue firme e forte, mas perdeu muito do vigor de outrora, aquela coisa meio “noviça rebelde” que encantava a molecada. Sempre que retorno à cidade converso com ela sobre a nossa infância e esses momentos felizes. Ela ri muito. É gostoso voltar no tempo junto com a tia, reparar seus olhos nostálgicos e observá-la no eterno vaivém da cadeira de balanço.

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